terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Leituras para 2012 VII

(Saiu do formo!)
A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan. Ed. Intrínseca. 

O livro, ambientado entre São Francisco dos anos 70 a Nova York por volta de 2020 (!), percorre a trajetória da banda (fictícia) The Conduits, recheado de referências pop. 
Sedento para conhecer o mundo daqui a dez anos!



Leituras para 2012 VI

Da seção "Leituras para 2012", lá vai:

(Saiu do formo!)
1922 - A Semana que não terminou, de Marcos Augusto Gonçalves. Companhia das Letras.

Oswald, Mário, Bandeira, Tarsila, Anita, Pagu, Villa-Lobos... Mais um relato sobre a tal da "Semana de 22".





Leituras para 2012 V

Da seção "Leituras para 2012", lá vai:

(Sai no 2º semestre)
1Q84, de Haruki Murakami. Ed. Alfaguara.

Inédito no Brasil, neste ano saem os dois primeiros livros da trilogia "1Q84".



Leituras para 2012 IV

Da seção "Leituras para 2012", lá vai:

(Saiu ano passado)

Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá. Ed. Panini

Os gêmeos forraram a estante de prêmios com esta HQ. O livro relata as mortes de Brás de Oliva Domingos, num misto de reflexões do cotidiano e disparates existencialistas. Parece bom, hein?!



Leituras para 2012 III

(Saiu ano passado)

Asterios Polyp, de David Mazzucchelli. Quadrinhos na Companhia / Companhia das Letras.

É a mais premiada HQ de 2011! Conta a história de Asterios, um arrogante arquiteto que repassa sua vida após um incêndio em seu apartamento. Repleto de referências ao mundo da arte, as ilustrações são de tirar o fôlego. O autor, Mazzucchelli, é o mesmo de "Batman Ano I" e o "Demolidor: a queda de Murdock", ambos de Frank Miller.


Leituras para 2012 II

Da seção "Leituras para 2012", lá vai:

(Sai em março)
A brincadeira favorita, de Leonard Cohen. 

Leonard Cohen já tinha se aposentado, quando descobriu, ano retrasado, um rombo estratosférico em sua conta corrente, aplicado pela sua empresária. Voltou à ativa, para nossa sorte. Acaba de lançar um disco de inéditas e seu romance, escrito nos anos 60, nem um pouco obsoleto, meio autobiográfico e (acho que) genial.

Leituras para 2012

Da seção "Leituras para 2012", lá vai:

(Sem previsão de lançamento)

Jogador Número 1, Ernest Cline. Ed. Leya.


Livro de nerd, confesso. Num longínquo futuro, as pessoas têm uma vida virtual dentro de um jogo (second life), denominado OASIS. Quando o criador do jogo morre, os jogadores descobrem que toda sua fortuna está escondida numa espécie de "caça ao tesouro", repleta de enigmas dos anos 80 e 90, entre games, filmes e músicas da época. É neste contexto que o livro acompanha Wade Watts, um adolescente nerd e, óbvio, o jogador número 1.
Em menos de um ano, o livro vira filme 3D, quadrinho, game, agenda etc. 
E objeto de nerd, claro. E meu também.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Iconografia

                                                           para o Luciano

Disparate iconográfico entre a vela
que se apaga com a força do vento
assoprada entre os ovos
trocados pelos de avestruz
em revide
aos profanos ovos de galinha

ponha Magritte
para carregar um caminhão de ovos
em suas pinceladas
sem botar filmes
em nossas cabeças

por Jean Narciso

O fascismo não foi

Tornou-se legal
Agora, estamos concentrados


Prestem atenção:
O palhaço chegou
Reparou o público
E num gesto inesperado

- Que palhaçada!


Sol nasce
Mar
As ondas chocam-se em minhas pernas
Eu absorto
Olhar solto longe depois de um ponto

É lindo
Emociona até
Eu?
Eu largado parasempre


O discurso igualíssimo
Mesmice sempre
Intensidade circular
Cachorro atrás do rabo
Roupa bem tecida
Cores várias
Diferentes modelitos
Muda de canal
Adjetivos?
Bastantes
E o corpo?
Nu e promíscuo


O mundo?
O da aparência
Eu ando pelas ruas
Elas parecem
As pessoas parecem que desejam
O desejo reporta-sea algo grandioso
Na esquina, mendigos se acotovelam
Aquela moça ali sorri
Sinto que a realidade partiu
Nem avisou-me de sua partida
Quem me dera poder abraçá-la
E o mundo cobre-sede uma nuvem

Gente
Sossego
Cada um é filosofo de si mesmo
O mundo caminha
Nós vamos pra lá
Sei lá
Mas o mundo muda
Não aborreça
Não se aborreça
Porque o rio corre ao mar

Sou sobrevivente
É
Faço a mesmice mesmo
Meu ritual?
Todos os dias,
Levo a água ao moinho do capital
Faço esse ritual religiosamente
Obedientemente
É incrível
Já até me adestraram


Se há bomba
Ela tem que explodir
Inventa-se umaguerra
Aquele povo lá tema cara torta

Se há polícia
Tem que havertambém repressão
Precisa tersegurança
Quem anda inseguro?
Por quê?

Se fabricamremédios
É preciso criar doenças
E se todos sararem
Oras, fabricam novos remédios


Um mundo bastante estranho
Bizarro até
Não é!
Reparem
A roupagem é azul
Mas na verdade, gostariam que fosse verde
Falam assim, assado
Entretanto queriam expressar isto e aquilo
Oras bolas
Por que então não dizer: isto e aquilo?
É que...

por Pedro Luiz

Reclame - Chacal

Se o mundo não vaibem
a seus olhos, uselentes
... ou transforme omundo

ótica olho vivo
agradece a preferência

por Pedro Luiz

O brinquedo

A história que meu compadre contou foi bem outra, mas...

Alzemira sempre teve vontade de entrar em um sex shopping. Mas receava ser vista por alguma congregada: “o que iriam dizer as irmãs?”, pensava. Ainda mais que em suas pregações, Atalberto, o marido e pastor da Igreja só Deus Ama e do jeito dele, era veemente em atacar qualquer mínima escorregadela libidinosa dos congregados. Bastava um suspiro, um desviar de olhos, para Atalberto condenar o pobre cristão ao fogo eterno. E Alzemira desviava o olhar, mudava caminho, trocava calçada, mas estava ela sempre em frente “à porta do inferno”, olhos pregados e curiosos em suas vitrines.  E já não conseguia dormir à noite, acordava transpirando, ofegando, garganta seca. Um dia Alzemira tomou coragem e entrou, receosa, temerosa, ávida corria os olhos pela infinidade de artigos ali expostos, encantou-se por um “dildo” de cor negra. Comprou-o e o guardou na bolsa que carregou como quem anda nua pelas ruas, sentido o olhar de todos sobre si. Alzemira, chegando em casa certificou-se de que Atalberto não estava, trancou-se no banheiro e brincou demoradamente. Depois tratou de camuflá-lo no fundo de uma gaveta. Toda vez que Atalberto toma a palavra e com efusão condenava a libidinagem, a descompostura, a falta de decoro das pessoas, condenando-as  irremediavelmente, Alzemira se molhava em suor e penitenciando-se prometia dar fim “àquela coisa do demônio”. E foi assim, que certa tarde, Alzemira pretendendo dar fim ao seu “objeto de perdição“, procurou-o no fundo da gaveta, mas não o encontrou: “meu Deus, Atalberto!” Durante a janta ela evitou o olhar de Atalberto, esperando-o: “com certeza agora ele me esculacha, me bota para fora de casa...” Nada! Atalberto agiu como de costume. Alzemira passou dias revirando a casa a procura do “maldito objeto”, num misto de saudade, alívio, preocupação. Nada de encontrá-lo. Renunciava a perguntar às filhas. Certa noite, já se acostumando com o fato de ter perdido o “maldito objeto” e receando e desejando comprar um outro, Alzemira entra no escritório do marido: “Atalberto!... Seu Filho da...” “Calma querida...” Atalberto de calças na mão: “não é nada disso que você está pensando” ...

por Cláudio Domingos

A prótese

por Cláudio Domingos

Michelly Jhacson tinha um belocorpo: esguio, seios arredondados e firmes, não muito grandes, belas pernas eum bumbum que “só por Deus”, como dizia, Apolônio. Todos admiravam sua beleza,mesmo as meninas, que demonstravam uma pontinha de inveja. Apenas Khelly Key,com seus olhos azuis lhe era rival à altura. Quando Michelly passava,suspiravamos e nossos olhos a seguiam avaros. Michelly, no entanto encasquetaraque não era tão bonita como queriamos nós. Se olhava no espelho e não seconformava: os seios, sim!, os seios não lhe agradavam, pareciam-lhe pequenos.Michelly decidiu: “devo colocar protese!”. Michelly ficou, como dizia um amigo,“a gata”. Nem mesmo Khelly Key foi lhe pario, até que, também, recorreu à mágicada cirurgia estética. Michelly agora desfilava com satisfação seu corpo porentre nós, a quem dava-nos apenas este direito: de babar por ela. Michelly nãoqueria nada com “esses pés chatos do bairro”, como dizia. Ela sonhava com oestrelato, e vivia correndo atrás da oportunidade de participar destes realityque infestam a televisão. Uma vez chegou a participar de um programa de auditóriocomo Garota Morango. O fato é que, desde que começaram a sugir problemas com asproteses de silicone da PPI, Michelly anda acabrunhada. Ela chegou a ligar paraseu esteticista, que garantiu-lhe : “ eu trabalho com  proteses rigorosamente avaliadas eregulamentadas pelos orgãos de saúde da Europa e Estados Unidos”. Mas Michellyencasquetara e, de modo quase doentio, se auto analizava repetidamente,receiando estar carregando um mal indelével em seu corpo. Do dia pra noite  Michelly se apagou, passava por nós epercebiamos, não mais atração e desjo, mas preocupação por ela.  A beleza de Michelly desaparecera entre seusreceios e o mal estar que estes receios lhe causavam, nos atingiam de algumaforma. Sofriamos com Michelly... Ontém Michelly acordou no meio da noite, levoua mão ao seio e sentiu o visgo, gelou súbito: “Meu Deus! Vazou!”. O espantomaior veio-lhe em seguida, quando sentiu algo sugando-lhe o outro seio. Um serinforme, gelatinoso, brotara de uma de suas proteses e se alimentava da outra.Michelly, passado o espanto: “menos mal, não é um cancer”.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Corpo vivido


O corpo vive na epiderme construída com a aridez das horas
Já passaram muitas horas
estou quase vinte anos mais idoso
do que o infante que mordia tímido as palavras
para não tirar o esmalte materno dos dentes.

Nada permanece em mim
que pode ser revisto e retomado
a pele das horas está anciã
as antigas meninas do jardim da infância
doravante gargalham erupção que vem debaixo
e faz espumar os belos e carnudos lábios.

Nada absolutamente nada
retorna inteiro ao corpo
a sobra das horas vividas
é espólio
guardada para ser saqueada
a qualquer instante na memória.

por Jean Narciso



dias

abertos fecho
para a imaginação manual
de um texto egípcio
me apego a realidade das gravuras
em silêncio
expulso momentaneamente o desejo
que sai líquido, triste e sujo.

por Jean Narciso

Caixinha

Fosse a caixinha
prometida para ser aberta
com sossego no dia do casamento
enfiaria minha chave japonesa
em sua caixinha.

por Jean Narciso

Impropérios sacros

afundo a língua
na parte frontal da bunda da sua reminiscência
mergulho em teu líquido
santifico o teu sal
com uma linda oração de Eros em teu ouvido
que escuta apenas a comunicação espontânea do corpo.

por Jean Narciso

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ai seu eu te pego


Parece-me que a pegada esta semana é um certo Michel Teló, classificado por uma revista de circulação nacional como “tradutor de nossos valores culturais”. Eu ainda não me ative a ouvir o tal sujeito, sei apenas que sua música é classificada como Sertanejo Universitário. Neste sentido quero pontuar alguns mestres do Sertanejo que deveriam ser visitados antes de se nomear o mancebo tradutor de nossos valores culturais. Mesmo porque a música é um elemento entre tantos a ser considerado quando se trata de Cultura. Ela é apenas um aspecto de uma cultura, e não abarca, de maneira alguma, todos os seus valores. Então, seria de se perguntar: “quais valores a música de Michel Teló traduz? Esses valores são específicos de um segmento ou permeia o conjunto da sociedade? Para isto, eu deveria dedicar-me um pouco mais a fundo a sua produção musical e não apenas ao hit do momento. No entanto, tenho coisas menos importante, mas mais prazerosas a fazer: Vou ir construir castelos de areia com meus filhos. Não deixo de citar, porém, que Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Mato Grosso e Mathias, Milionário e José Rico, estes são nomes que me vêm em mente agora, têm composições magistrais que representam mais profundamente o imaginário simbólico do sertanejo urbano e rural, que esta batidinha que meu filho de dois anos repete a exaustão.  Se ampliarmos o leque e considerarmos a música de modo geral, passando pelo popular e pelo regional: Pixiguinha, Adoniran Barbosa, Noel Rosa, Milton Nascimento, Sá e Guarabira, Belchior, Elis Regina, Chico Buarque, Ton Jobim, Lenine, Zeca Baleiro, Cazuza, Renato Russo, Chico Science, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Renato Teixeira, estes são os que eu, particularmente, freqüento, mas poderia citar outros trezentos nomes, são muito mais representativos da produção musical brasileira, que este rapaz. O fato de uma sua música, ou refrão dela, estar na boca de meus filhos de seis e dois anos que a repetem a exaustão assim como na cachola de alguma socialite ou figurão global não o tornam tradutor, de modo algum, de nossa cultura. Expressa sim o interesse de alguns segmentos, que é legitimo, visto que o seu produto é também mercadoria. Michel Teló é, na verdade, mais um fenômeno musical. Já tivemos outros: Claudinho e Buchecha, os Mamonas Assassinas, até ontem um tal Fiuk, por exemplo. Por fenômenos me interesso apenas pelos naturais que me causam estranheza e fascínio. Estes produzidos pela industria do espetáculo pouco me atraem. Mas por mim: deixem o menino cantar já que tem quem goste. Agora quem o colocou como tradutor dos valores de nossa cultura, ao invés de estar apenas a ouvir Sertanejo Universitário, deveria voltar a freqüentar os bancos da Universidade. Em especial, a cadeira de Antropologia Social. Então irá saber que nossos valores são muito mais complexos que se imagina e não cabem numa simples "banalidade musical", por mais sucesso que essa faça.

por Claudio Domingos Fernandes

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Marlene


Eu  s

          a

               l

                     t

                        e

                         i

do quinto andar. Era noite.

Chov

Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia

Como num flash os anos

1968, 1969, 1970, 1971, 1972, 1973 ....................2001, 2002, 2003, 2004, 2005 ................2011, o beijo em Amanda, o acidente na Serra, a morte de Mauricio, Anitha se depilando para o primo, o primeiro carro do pai, a morte da mãe, o baile de quinze anos da prima e a chupetinha que ganhei de presente da aniversariante, a briga com o Arthuro que me deixou uma cicatriz no ombro, a transa com Anitha diante do primo, o diploma do colégio, da universidade, a primeira tentativa cortando os pulsos depois que Marlene foi embora, o primeiro beijo em Marlene, a primeira vez que  meus olhos encontraram o sorriso de Marlene, o primeiro beijo em Marlene depois do cinema, o dia que transamos debaixo do altar..., perpassavam-me confusamente.   Maaaaaaaaaaar

                                                                                                                                    L

                                                                                                                                     E

                                                                                                                                      E

                                                                                                                                       E

                                                                                                                                        E

                                                                                                                                         E

                                                                                                                                          E

                                                                                                                                           E

Tivesse eu pulado do décimo andar terminaria esta história....    

por Claudio Domingos Fernandes

Anjo romano

Anjo de falo romano
adorado de modo bucólico
pela mulher helena
que todos os dias passa por aqui
esquecendo o aspecto facial da obra de arte.

Grácil helena de cintura vulcânica
de erupção inédita
oculta infinda maciez na boca
Percurso incomum na língua
hoje quando amanheci estátua
a supreendi rezando de joelho
para o meu anjo



por Jean Narciso

Sons surdos

Amortecer o silêncio
com peso de música
dó ré mi fá só lá si
unidas em roda
sopram sonoridades
na boca apática

O silêncio
contrito ávido austero
assiste o engate imprevisto
do corpo ao jardim promíscuo
folhas de ipê amarelo retumbam
em cima de pretéritos dias
cerrados numa caixa adulta



por Jean Narciso

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Santos são feitos de carne e osso


Meninos da minha vila:

A surra foi grande. O tsunami de Yokohama ainda permanecerá marcado por muito tempo – quiçá com hematomas indeléveis - na mente alvinegra depois deste 18 de dezembro. Nós, santos da bola, que um dia ensinamos ao mundo a magia do jogo, provamos hoje do nosso próprio veneno, como magistralmente afirmou o técnico Guardiola, na coletiva de imprensa: "O que tentamos fazer é tocar a bola o mais rápido possível. Na verdade, é o que o Brasil sempre fez, segundo me contavam meus pais e meus avós".

Meus guris, como diria Chico, vocês descendem destes inventores!

Não das “cantoneras”, espaços de incubação dos garotos catalães. Lá, são doutrinados pela filosofia cruyffiana da solidariedade mútua, de contribuição e ocupação de espaços visando plenitudes defensiva e ofensiva. O improviso é igualitário; a imaginação, idem. O passe, o drible, o chute, tudo é milimetricamente calculado, apurado. Não há erros ou sobras. O “lúdico” é se divertir e não deixar o outro participar.

Nada mais fabril. Nada mais perfeito.

Nada mais chato.

Levamos um pito da bola. “Por que me abandonaste?”, deve ter sussurrado consigo própria, governada de pé em pé por habilidosos e ligeiros espanhóis, enquanto desfilava por impassíveis alvinegros. Ficamos atônitos diante da plasticidade azul-grená, da movimentação incessante do precursor carrossel laranja, enfim, de uma miscelânea de cores e tons como as telas desconcertantes do também catalão Miró.

Mas, “o sol há de brilhar mais uma vez...”, não é, mestre Nelson? A dor passa, meus meninos, e ensina. Diante da soberania adversária, bem distante da carnificina do escrete canarinho diante da Holanda de Cruyff, em 74, os santistas aplaudiram Messi e cia., enxugaram as lágrimas e prometeram voltar.

O sol há de brilhar mais uma vez... E não é assim a vida de cada um de nós?

Estes gringos nos plagiaram em quase tudo. Aperfeiçoaram os ensinamentos do futebol com educação e cultura europeias. Educação e cultura, pois é. Este talvez fosse nosso maior ensinamento. Pelo menos isso, garotos da Baixada, não é culpa de vocês.

E por mais que tentem nos imitar, jamais serão como nós. Porque somos inconstantes, imperfeitos, tempestuosos. Não como a existência humana deveria ser, mas como ela é. Conquistamos neste ano a terra descoberta por Colombo em gramados esburacados de San Cristóbal, Santiago, Assunção, Querétaro e Manizales.

Somos a magia e o suor envolvidos em pano branco.

Se eles são deuses, como afirmam, somos santos.

E santos são feitos de carne e osso.






Barecelona Singular
jovial
O Nós
solidário
vira revira
nós nós nós

Pra lá
agora
pra cá

Poesia

Roda roda roda
Ela (a bola)
pés pés pés
roda roda roda
mais um gol de colher

por Pedro Luiz
Há oesgotamento.
meuDeus, é o caos!
Tudoanda ruim demais
euexauri-me
arrumeium olhar longe sem rumo
deperiquito velho
poucobico

mas
pensandobem
estábom
agorajuntos, nós damos a solução

por Pedro Luiz

As traquitanas de Álvaro Campos

Para Fábio Miguel

“Nós não estamos só em nós mesmos, certos objetos conservam a memória do que somos”

Rodner Lúcio



Quando Álvaro Campos morreu deixou aos filhos a incumbência de desfazeremde suas coisas doando-as, vendendo-as ou simplesmente consumindo-as no fogo.Nada além do que estava estipulado em testamento deveriam os filhos conservarpara si. Dizia ele que “há objetos que possuímos porque narram algo de nossahistória, mas uma história que compete apenas a nós contarmos. São essastraquitanas que vamos acumulando no porão, e que, vez ou outra, numa arrumação,encontramos e despertam nossa memória. Só em nós elas despertam sensações, sentimentos,emoções particulares. Elas precisam de nós para terem sentido, sem a nossapresença elas se apagam.” Feito, então, a partilha dos bens, os filhos de ÁlvaroCampos, num domingo, reuniram-se para decidirem o que fazer com as traquitanasdo pai. Desceram ao porão, reviraram-no todo, foram desentranhando uma montanhade coisas que iam separando umas para serem doadas, outras para serem vendidas,outras para serem queimadas, não pareceu-lhes difícil decidir em que categoriacolocar cada coisa. A certa altura, o mais moço encontrou um botão de camisa,lágrimas escorreu-lhe nos olhos, um outro dava saltos de alegria, calçando umvelho par de sapatos, outro contava animado um fato qualquer, segurando umacaneca de porcelana ... O fato é que passados vinte anos, os filhos de Álvaro Camposainda não saíram do porão. Ora choram. Ora riem. Ora cantam...

por Claudio Domingos

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Finados

Para Fábio Miguel


Não considero a morte uma ausência, porque oscorpos desfeitos em cinzas ou re-misturados à terra, não nos abandonam. Elesconvivem ao nosso lado, nos visitam em sonhos e mesmo enquanto caminhamos porcaminhos que fizemos juntos. Quando meu padrinho morreu, ele foi velado em casa.As mulheres rezavam. Os homens ao redor da fogueira, contavam causos. Meupadrinho entre eles sorria-me. Tinha eu oito anos. Ainda o vejo de pito emboca, conversando com pai na varanda. Quando os moleques descem a rua em seuscarrinhos de rolimã, entre eles está o primo, cantarolando Tim Maia. E tia Mailsa,ainda aparece-me entre as frestas de portas. Mas não são apenas pessoas quecompõem meu universo. Leão, o vira lata de pêlos amarelos, ainda balança o raboe saltita quando abro o portão. Tenho a impressão que é Bolinha, “esta cadelaordinária”, quem esconde meu chinelo. E tem manhãs que me desperto com o cantodo Cardenal, o canarinho de tia Sabastiana. Tem ainda os brinquedos, os gestos,as situações, que visitam-me sempre. Carrego, por exemplo, uma flor, a primeiraque dei acompanhada do beijo que tanto esperei e não veio. Às vezes a vejoentre as rosas de meu jardim. Acho graça. O Ipê amarelo já não existe mais. Masnão tem como passar por esta rua e não vê-lo. O cheiro de chuva trás sempreconsigo o de bolinhos de trigo e café adoçado com rapadura. E o café que solvotem este sabor. Vendo as crianças brincando, brinco com Salomé, a boneca de retalhosque tia Sabastiana fez para Naninha, como eu gostava daquela boneca mais queNaninha. “Homem não brinca com bonecas”, ralhava pai... Morrer é apenas um jogode esconde-esconde. E Não somos nós que achamos nossos mortos, eles nos procuram. Eu não saberia viver sem esta relação. 

por Claudio Domingos

domingo, 23 de outubro de 2011

Aparecimento
- ...
Desaparecimento

Meu, meu Deus!
Terei que recheá-los?

por Pedro Luiz da Silva
Maldição!

Esse livro...
Maldito seja o autor dele!
Maldito!
Eu não entendo nada.
Maldito seja o autor dele!
Maldição!
Maldição!

Oh! Zeus, respingue em mim O Seu Brilho!

por Pedro Luiz da Silva

O depilador

por Claudio Domingos

Carmem contou que Ayrton Senna começou a ter aulas de música com o espírito de JohnLennon. “O Ayrton foi se especializando, mas o John não dava aulas só para ele.E uma das primeiras músicas que ele fez foi para Xuxa”*.

 

Quando criança eu li ahistória de um bandido que roubava calcinhas. Ele abordava suas vitimas, asimobilizava e roubava-lhes a calcinha. O crime só veio às paginas dos jornais,porque uma das vitimas, esperando mais que a simples perca da peça sentiu-sefrustrada. Ela nutria certas fantasias e quando abordada pelo bandido,acreditou que estava prestes a realizá-las. Mas quando percebeu que o sujeito,após subtrair-lhe a calcinha saiu em disparada, sem nem mesmo tocá-la, seindignou, subindo-lhe um furor jamais sentido. “Deu pena”, disse o delegado, “domeliante”... Porque estou a lembrar-me desta banalidade? É que o sujeito em seudepoimento dizia agir por intersecção de um espírito. Eu nunca acreditei nestascoisas e sempre que alguém me dizia ter composto algo ou realizado algo por intercessãode algum espírito eu lembrava-me deste fato. Um outro fato é o Rubião, umtraquineiro que morava próximo à minha casa. Tínhamos muito medo de Rubião, queaproveitava para tirar-nos dinheiro e merenda. Certa feita, chamada na escola,a mãe disse que Rubião era o que era, não por ele, mas devido ao Zé Pilintraque o incorporava. Eu sei que eu tinha medo de Rubião e o evitava. Um dia oamarraram no poste e deram uma surra nele. Os irmãos Lee aproveitaram a visitade uns primos. A mãe foi reclamar. “Não foi no Rubião que batemos não, tia. Foino Zé Pilantra”. O certo é que Rubião e a irmã dos Lee formam hoje um belocasal.  Então eu achava graça destashistórias de intercessão,possessão, psicografia e coisas do gênero. E quando o padre disse que não eraele, mas o Cristo que ouvia minha confissão, eu ri e disse-lhe: “padre, euconfesso: Sou o Jack Estripador”. Eu não acreditava nestas coisas. Repito, nãoacreditava. Mas, nada melhor que morrer para que as coisas se esclareçam...Coitado deste sujeito, como ele irá convencer os seus que quem o possui é um espíritoque teve aulas com Jack, o Depilador. Com o outro já não tinha mais vaga, e afila de espera chega ao próximo século...

* http://megacanal.wordpress.com/2011/10/21/espirito-do-piloto-ayrton-senna-e-psicografada-pela-medium-carmem-tiepolo/

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A cena



por Cláudio Domingos

Apenas vi a cena do crime, lembrei-me do Fuinha, menino de quemmamãe cuidava. Ele gostava de recortar imagens de revistas e colocaras partes uma ao lado da outra, mas: a perna esquerda no lugar dobraço direito, o braço direito no lugar da perna esquerda e assimem diante. Geralmente a cabeça ele a colocava no lugar do pênisquando se tratava de figura masculina. Quando se tratava de mulher acabeça desaparecia. Enquanto ele fazia isto com figuras de revistas,achavamos graça. Quando, porém ele começou a esquatejar as bonecasde Carolyne, a confusão se armou. Certa vez Carolyne chegou acortar-lhe o dedo, a ponto de quase arranca-lo fora. Ele depoisdisto, ficou um bom tempo sem aparecer, mas como a mãe precisavatrabalhar e não conseguia niguém para ficar com ele, mamãe oassumiu novamente. “Se ele tocar em minhas bonecas eu o retalho”,gritou Carolyne, assim que a mãe o deixou no portão... A coisascorreram tranquilo durante um bom tempo, até que o gato da vizinhaapareceu esquartejado... Ele e a família tiveram que sumir àspressas. O vizinho prometera morte... Fazem já trinta anos que tudoisto ocorreu, mas  a cena do crime trouxe-me à mente Fuinha. Diantede mim estava a sua assinatura. O corpo de mulher esquartejado com osmembros em posição contraria e ausente de cabeça; eu tinha plenacerteza de ser ele o autor de tal brutalidade... Liguei para mamãepara saber se ela recordava o seu nome e se tinha alguma informaçãoa seu respeito, uma vez que a mãe e mamãe eram muito próximas. Foientão mamãe quem disse-me de sua troca de sexo e que quem o tinhaencontrado recentemente fora Carolyne...
Na delegacia Carolyne explicou que o gato tinha sido apenas umtexte... Quando perguntei-lhe da cabeça, ela me levou até a boneca:“Eu havia avisado!”

sábado, 15 de outubro de 2011



Uma ideia paira no mundo
todos comungam com ela
consumo.

Ela aparece nas vitrines
metamorfoseada e brilhando
fantasma.

Não há um que esteja fora
muito menos por fora
dentro.

Todas buscam espetáculo
lutando para sair do real
feitiço.

por Pedro Luiz da Silva
Economize água
recicle garrafa pet
latinha de refri
bunda
papel
fora de foco
ao tomar banho
feche a torneira
e ensaboe
não jogue lixo no rio Tietê
coloque botox
na cara
n perna
na bunda
no nariz
cuide do verde
fora de foco
ao escovar os dentes
feche a torneira
fora de foco

Vamos parar com essa bobajada
"Expludamos" já a propriedade privada

Porque não adianta, sozinho, dinamitar a Ilha de Manhattan.

por Pedro Luiz da Silva

Amoris Mater

por Cláudio Domingos


Estávamos na varanda eriamos das piadas do Arthuro. Minha irmã chegou com Lidiane nossa prima eAretma, uma amiga de Lidiane. Foi atração a primeira vista. Enquanto todos seinteressavam por seu nome, minha atenção era por toda ela.  Fiquei a noite “pagando pau” pra aquelamulher de sorriso tímido e olhar receoso. Aproveitei quando ela perguntou pelobanheiro e com a desculpa de ir buscar outra cerveja me propus indicar-lhe ocaminho. O pessoal, que já havia sacado meu interesse, fez alguns gracejos. MasLogo após ter ido ao banheiro, ela se despediu. A zoação com minha pessoa, então, rolou o resto da noite... Aretma, no,entanto, saia de minha cabeça e, por intermédio de Lidiane, eu a contatei emarcamos um encontro. Deste encontro em diante, a diferença de idade entre nósnão foi empecilho para criarmos uma afinidade e intimidade de dar inveja aqualquer casal. Mulher madura, Aretma tem pele morena como a minha, olhosclaros, nariz miúdo e lábios finos; um belo corpo: seios médios, coxas bem torneadas,uma bela bunda...  Eu mais jovem, soubaixa, e não me acho bonita de corpo: meus seios e bumba são muito grandes.Podem agradar aos homens, mas a mim não... Na cama funcionamos muito bem enossas fantasias não têm limites. A habilidade de Aretma com certos jogos é dedar inveja, um homem não me daria maior prazer. Mas, embora nossa relação sejaintensamente compartilhada, pouco sei sobre a vida de Aretma, que evita falarde sua infância e adolescência. Para ela o passado não existe. Além disto, suapersonalidade altera quando lhe falo em adotarmos uma criança. Aretma se perdedentro do próprio olhar e fica semanas assim... Queria entender o porquê, mas éinútil qualquer tentativa. Aretma se fechava a sete chaves e insistir noassunto só a torna mais reclusa em si mesma. O jeito é dar tempo ao tempo. Paramim, Aretma é minha razão de ser, perdê-la é perder qualquer motivação..., nãosaberia viver sem ela...  Certa vez, aquicomeça meu conflito, enquanto Aretma tomava banho, fuçando em uma gaveta encontreiuma pasta com alguns recortes de jornal. Tinham mais ou menos a minha idade.Quando perguntei a Aretma o porquê daqueles recortes, ela subiu pelas paredes deraiva e só não me matou por um triz... Ficamos semanas sem nos falar. Foram osdias mais tenebrosos de minha vida, cheguei a tomar uma dose excessiva de umremédio... Passada a tormenta, sem tocarmos no assunto, reatamos e eu mecomprometi a não mais mexer em seu passado... No entanto, mamãe, que nuncaaprovou minha opção sexual, há algumas semanas, faleceu, e minha irmã,organizando suas coisas, encontrou uma espécie de dossiê a meu respeito.Quando, abri a pasta que minha irmã me entregou, o choque foi imediato. Eram osmesmo recortes de jornal que havia encontrado na casa de Aretma.   

“Recém nascida éencontrada em lixeira”

“Pedreiro resgata recémnascida de Lixeira”

“Recém nascida emlixeira deve ficar com família do pedreiro que a encontrou”

“Polícia não tem pistassobre mãe de recém nascida em lixeira”

Eu já não sei maisviver sem Aretma e se ela não sai deste coma: Ela não terá coragem de meabandonar novamente, ela não fará isto comigo. Eu não sei viver sem Aretma...Eu não sei viver sem Aretma... Eu não sei viver sem Aretma... E se ela não saideste coma? ...

O valor de um presente

por Cláudio Domingos

Meu nome é Almerinda deSouza Lemos, mas ninguém me conhece por este nome. Eu mesmo dou-me a esquecerchamar Almerinda. As pessoas conhecem-me por dona Doca. Não me perguntem o porquê,sei apenas que desde sempre as pessoas, e eu mesma, chamam-me Doca. Teve até umfato engraçado, porque um moço parou-me na rua, e eu ia apressada, eperguntou-me, dona posso fazer-te algumas perguntas e mandou a primeira antesmesmo que eu assentisse: “qual teu nome?” Doca, respondi. “Doca do que, dona?”Continuou ele. É Almerinda, tentei corrigir. Mas ele já vinha emendando umcomentário: “diferente o nome da senhora!”, e partia para a terceira, quarta equinta perguntas uma seguida da outra, que quase não sabia o que responder. Elá se foi o meu nome naquela pesquisa como Doca Almerinda. Então é assim, nãoadianta procurar-me por meu nome de batismo. Sou Doca e pronto. Tenho 60 anos,tenho quatro filhos, um junto a Deus, que nos deixou ainda não tinha pecadonão. Os outros estão aí bem formados, pessoas honestas como sempre fizemosquestão de educá-los. São dois moços, um mecânico e outro eletricista, e umamenina, que este ano Deus querendo termina a faculdade de psicologia. Demos umduro danado, mas ver os fios encaminhados é uma benção de Deus.  Tenho também oito netos e, logo logo, umabisneta: Ana Carolina.
            Deminha infância guardo muitas lembranças, mas a que mais me agrada recordar é ade minha primeira boneca.
            Nasci de uma família humilde, no interiorde São Paulo, Cruzeiro. Meus pais eram sitiantes e além de mim tinham outroscinco filhos, três homens e duas mulheres. Eu era a terceira na ordem denascimento, a primeira entre as meninas. O sitio não era nosso não, nosso pai arrendava um pedacinho de lavouranas terras de um italiano de São Paulo, que vinha uma vez ou outra passar unsdias na casa sede. Nós morávamos numa casinha pau a pique como outros colonos.Eram três cômodos de chão batido e um banheiro externo. Pois bem, não tínhamosmuitos brinquedos não, e os poucos que tínhamos eram quase todos frutos denossa imaginação. Assim muitas de minhas bonecas eram de sabugo de milho ouretalho torcido e amarrado com cipó. Mas um tio, irmão de mamãe, veio de SãoPaulo nos visitar. Era por época do natal. E ele então trouxe lá algunsembrulhos em papel pardo parecido com estes de cimento e amarrado com um cordãogrosso de algodão. Foi uma festa aquele dia. Eram presentes que ele mesmo haviaconfeccionado. Para meus irmãos carrinhos de madeira sem muito acabamento epara mim e as meninas umas bonecas, duas de pano, parecidas com umas da vendado seu Augusto e que as meninas com um pouco mais de condição tinham. Uma outrafeita, como ele dizia, de papel machê, ensinando como fazer: “você pega uns pedacinhosde papel deixa dormir dentro d’água e depois acrescenta um pouco de farinha eferve um pouco... etc e tal”.
Pois coube a mim tal boneca. E a principiofiquei fura da vida. Era uma boneca toda assimétrica, um rosto rústico,parecendo maracujá, a perna direita mais longa, o braço esquerdo mais curto, osolhos opacos e um cabelo de lã num amarelo gema que nunca vi. Era um horror deboneca. E durante muito tempo, ficou lá, jogada num canto, preterida. Preferiabrincar com meus sabugos e torcer meus retalhos e amarrá-los com cipó. Aospouco, porém, por curiosidade, aproximava-me desta boneca. E por curiosidadecomecei a amassar papel com farinha e a moldar, eu mesma, minhas bonecas. E asprimeiras eram tão horríveis quanto a minha. Só compreendi a sua beleza, quandotrinta anos depois, descobri entre as coisas de minha irmã caçula minhaprimeira boneca de papel machê. Perguntei-lhe porque ainda guardava aquilo. Elarespondeu-me: “porque foi um teu presente e me foi dado de coração, pois eratudo o que você podia me dar”. Naquele mesmo dia fui visitar meu tio eagradecer-lhe. Quase quarenta anos depois eu tinha aprendido o valor de umpresente.
Estou convosco
Estou com eles
Estamos com

Estou com ele
Estou com contigo

E eu estou comigo.

por Pedro Luiz da Silva

sábado, 8 de outubro de 2011

A maçã envenenada de Steven Jobs


por Luciano Melo

Em fevereiro de 1985, meses antes de ser demitido da empresa que criou, Steve Jobs recheou as páginas da edição americana de Playboy do mês com uma entrevista célebre e atemporal. Com apenas 29 anos, Jobs acabara de distribuir no mercado um dos primeiros computadores pessoais – o Macintosh, sob os olhares suspeitos dos muitos que não acreditavam na utilidade de um microprocessador doméstico. É incrível como o então “senhor Apple” esclarece o intrincado sistema operacional do recém-lançado Mac por meio da funcionalidade de alguém sentado na poltrona do sofá que decide ir ao banheiro obedecendo a comandos mentais.
Esta entrevista, como tantas outras manifestações públicas de Steve Jobs desde a sociedade com Steve Wozniak e Ron Wayne e a fundação da Apple I em 1976, na garagem da própria casa, com subsídios adquiridos a partir da venda de uma antiga Kombi e de uma calculadora HP, revela uma personalidade capaz oferecer ao consumidor não um produto, talvez nem mesmo um conceito, mas uma filosofia.
Antes de tudo, Jobs difundiu um determinado modus operandi de transpor o século XX para o XXI entre as possibilidades ilimitadas da interação “homem – capital – tecnologia”. Então, somos o mesmo homem seiscentista mirando o infinito em busca de respostas. A diferença é que o ponto de partida pode não estar à beira do oceano.
Quiçá esteja tocando no bolso de sua calça.
A seguir, os preceitos do pensamento jobsiniano:
O público e o privado
Até o lançamento do processador Macintosh, a vida profissional e/ou acadêmica de um adulto, quando não desfrutando das horas íntimas de lazer, se resumia ao movimento ‘trabalho – casa – trabalho’. Estabelecia-se, portanto, uma função orgânica do sujeito diante das exigências do cotidiano: intra e extradomiciliar, já que não se tratava de assuntos “particulares” no emprego ou “profissionais” no lar. Para ilustrar tal diacronia, as agendas de papel da época vinham com marcações prévias dos horários diários que racionavam o dia entre compromissos “sociais” e “pessoais”. A partir de 1985, e a chegada do microcomputador Mac aos domicílios americanos, Jobs inaugurou uma rede interativa de afazeres educacionais e comerciais, estendendo tais diálogos ao convívio familiar. A mesma máquina que processava tarefas extrafamiliares estava disponível ao usufruto de todos os membros da casa, através de impressão de desenhos e textos ou de “games” digitais. A partir de então, rompiam-se os limites entre o público e o privado e, em consequência, ao famigerado circuito “trabalho/escola e casa.” Aliada a tal filosofia, a agilidade e a simplicidade dos comandos configurava o Macintosh num inédito executor de multitarefas, assim como seu próprio usuário.
O culto ao objeto
O consumidor de um aparelho idealizado por Steve Jobs é um consumidor “Apple”. A peça é idealizada a oferecer praticidade congregada a uma determinada experiência estética, seja ela visual ou escultural. A interface dos componentes, a disposição simétrica por vezes surpreendida por uma ranhura ou saliência dissonante e a miscelânea cores inusitadas são algumas das características que estreitam o design “Apple” a determinadas escolas e tendências artísticas, como a disseminação do Minimalismo americano nos anos 60, apreciado in loco pelo jovem Steve Jobs. Partindo do abstracionismo ianque norteado por Jackson Pollock, o movimento minimalista buscava uma determinada geometrização simplificada pós-caos abstracionista, mesmo antepondo-se à simetria do objeto. Paralelamente, ainda sem relação aparente com o Minimalismo, o jazz atonal apadrinhado por Miles Davis, buscando síncopes desarmoniosas em uma textura melodiosa primitivo, inquietou o espírito empreendedor do futuro criador da Apple, fã declarado da dissonância bebop de Davis [1]. Retomando o universo da informática, a partir de 1985, com o lançamento do Macintosh, fundem-se a estética e a funcionalidade do computador. A Apple mira aperfeiçoar a intervenção do usuário, mas oferece uma experiência singular: a aquisição de um produto (obra de arte?) idealizado por um gênio (artista?), Steve Jobs.
A interação
Utilizar qualquer processador da Apple é uma genuína percepção táctil do que a relação com a tecnologia pode oferecer. Substituir os arcaicos e tormentosos comandos do MS-DOS foi talvez a primeira grande revolução proporcionada por Jobs. Para que ordenar uma máquina a abrir ou executar determinada função por meio de infinitos códigos se poderia simplesmente apontá-la? Os progressos como a tela touchscreen do iPad  ou a gerência de voz do atual iPhone são ainda resquícios do insight gerado na idealização do mouse pela Apple, lançado no pacote Macintosh em 85. Se a experiência com a tecnologia se dá por um clique, um toque ou pela voz, pouco importa. A máquina de Steve Jobs é uma extensão do próprio corpo do usuário, como se você tocasse seu próprio rosto no espelho.
Com a Apple, a execução de um comando digital é tão barato que dá a sensação de tudo estar ao alcance de todos, sem nenhuma mediação. Saciar a fome com um apetitoso prato de macarronada não passa pela percepção da interferência do garfo: o objetivo é apenas saciar a fome com um apetitoso prato de macarronada. Da mesma forma, abrir ou fechar compartimentos no computador, sejam estes direcionados ao trabalho, à educação ou ao lazer, passa a ser tão banal como abrir ou fechar uma torneira. Neste sentido, na experiência com um microprocessador não caba mais o questionamento para a direção da experiência. O que importa os fins da interação? Você pode aglutinar diversas terminações de uso – trabalho, educação, lazer – em apenas um toque, táctil ou sonoro. Não há mais barreiras temporais, espaciais ou mesmo intelectuais. Basta estar com fome.

A trilha sonora
Em 2001, a Apple lança a primeira versão do iPod, um compartilhador de dezenas de milhares de músicas (hoje, centenas de milhares) que sumia na palma da mão. A simplicidade de selecionar as faixas ou o minimalismo das informações contidas na tela transformou o iPod num profícuo executor de trilhas sonoras para diversos momentos do cotidiano. É claro que a experiência particular de se escutar música em qualquer lugar ou momento já tinha sido oferecida pelo walkman ou (posteriormente) discman. Mas e a infindável recarga das pilhas? E o difícil manuseio e transporte? Para se ter uma ideia, você com menos de 20 anos, estes equipamentos dispunham de um gancho na traseira para prender no cinto ou na borda da calça. ( E isso um dia já foi legal, acredite.) 
Enfim, ao modus operandi de Steve Jobs, era necessária uma revolução. Não vou desperdiçar seu tempo e enumerar as melhorias infindáveis do iPod em relação a seus antecessores, mas algo precisa ficar bem claro: há uma mudança na experiência musical do cotidiano. Alex Ross, um dos principais críticos musicais da atualidade, do renomado The New Yorker, na introdução do excelente Escuta Só – do Clássico ao Pop [2] relata a experiência avassaladora com o iPod no modo shuffle.

Este texto continua...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011


Você corre?
Não pode!
Por que você corre?
Por quê?
Quer chegar em algum lugar?
Acha mesmo que o mundo depende de você?
Dessa correria?
Da sua pressa?
Esqueça!
Ele controla tudo.
Olhe para a rua!
Como ele quer, está
Quer correr?
Não corra!
Porque...

por Pedro Luiz da Silva

Minha vida eu a vivo
e ela tem se tornado
sabe...
abre-se um vazio
por todos os lados
aquilo que parece que é
não é
pasmem,
fazemos cara de que seja:
sério, com-penetrado no ser, rigor
querendo que se acredite:
exclamações
emoções
destaques
grifos
retumbâncias
ponto:
de vista
vamos
nossa!
franzimos a testa
temos uma cara:
de quê?
meu Deus!
parece séria


por Pedro Luiz da Silva

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Lançamento de "Vacuos Mundi"

Anotem na agenda: nosso colaborador-mor, Cláudio Domingos, estará lançando "Vacuos Mundi", nos dias 17 e 24 de setembro, às 19h.
No dia 17, o evento se dará no "Centro Cultural Francisco Carlos Moriconi", à rua Bejamin Constant, 682 - Suzano, centro.
No dia 24 de setembro, na "Associação Cultural Opereta", à rua Dr. Emilio Ribas, 158, Poá, centro.
Nestas mesmas datas, estará sendo lançado também o livro "Memórias de Onã", de Marco Aurélio P. Maida, que também já colaborou neste espaço.

Em breve, mais detalhes dos lançamentos.



Onã

A meu Compadre Marco Maida que em breve lança "Memórias de Onã"

Chegou em casa por volta das onze. Deixou os livros e os diários sobre o sofá. Passou pela cozinha abriu a geladeira pegou uma cerveja. As crianças e a esposa dormem. Entra no banheiro. Esvazia a cerveja; esvazia-se. Voltando pra sala pega outras duas cervejas. Liga a televisão zapea canal a canal nada o atrai. Pensa na número 38: “qual o nome dela mesmo”? Tem o nome da cunhada. Cochila, a latinha cai por terra... Por volta das duas desperta, na tela da televisão a 38 lhe faz um boquete. Ele ejacula. Abre a outra cerveja. Toma-a de uma vez. Vai pra cama. Às seis o relógio desperta. Levanta, toma banho, toma café, beija as crianças a esposa que apenas diz: “deixe a sala arrumada”.

por Claudio Domingos