segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Santos são feitos de carne e osso


Meninos da minha vila:

A surra foi grande. O tsunami de Yokohama ainda permanecerá marcado por muito tempo – quiçá com hematomas indeléveis - na mente alvinegra depois deste 18 de dezembro. Nós, santos da bola, que um dia ensinamos ao mundo a magia do jogo, provamos hoje do nosso próprio veneno, como magistralmente afirmou o técnico Guardiola, na coletiva de imprensa: "O que tentamos fazer é tocar a bola o mais rápido possível. Na verdade, é o que o Brasil sempre fez, segundo me contavam meus pais e meus avós".

Meus guris, como diria Chico, vocês descendem destes inventores!

Não das “cantoneras”, espaços de incubação dos garotos catalães. Lá, são doutrinados pela filosofia cruyffiana da solidariedade mútua, de contribuição e ocupação de espaços visando plenitudes defensiva e ofensiva. O improviso é igualitário; a imaginação, idem. O passe, o drible, o chute, tudo é milimetricamente calculado, apurado. Não há erros ou sobras. O “lúdico” é se divertir e não deixar o outro participar.

Nada mais fabril. Nada mais perfeito.

Nada mais chato.

Levamos um pito da bola. “Por que me abandonaste?”, deve ter sussurrado consigo própria, governada de pé em pé por habilidosos e ligeiros espanhóis, enquanto desfilava por impassíveis alvinegros. Ficamos atônitos diante da plasticidade azul-grená, da movimentação incessante do precursor carrossel laranja, enfim, de uma miscelânea de cores e tons como as telas desconcertantes do também catalão Miró.

Mas, “o sol há de brilhar mais uma vez...”, não é, mestre Nelson? A dor passa, meus meninos, e ensina. Diante da soberania adversária, bem distante da carnificina do escrete canarinho diante da Holanda de Cruyff, em 74, os santistas aplaudiram Messi e cia., enxugaram as lágrimas e prometeram voltar.

O sol há de brilhar mais uma vez... E não é assim a vida de cada um de nós?

Estes gringos nos plagiaram em quase tudo. Aperfeiçoaram os ensinamentos do futebol com educação e cultura europeias. Educação e cultura, pois é. Este talvez fosse nosso maior ensinamento. Pelo menos isso, garotos da Baixada, não é culpa de vocês.

E por mais que tentem nos imitar, jamais serão como nós. Porque somos inconstantes, imperfeitos, tempestuosos. Não como a existência humana deveria ser, mas como ela é. Conquistamos neste ano a terra descoberta por Colombo em gramados esburacados de San Cristóbal, Santiago, Assunção, Querétaro e Manizales.

Somos a magia e o suor envolvidos em pano branco.

Se eles são deuses, como afirmam, somos santos.

E santos são feitos de carne e osso.






Barecelona Singular
jovial
O Nós
solidário
vira revira
nós nós nós

Pra lá
agora
pra cá

Poesia

Roda roda roda
Ela (a bola)
pés pés pés
roda roda roda
mais um gol de colher

por Pedro Luiz
Há oesgotamento.
meuDeus, é o caos!
Tudoanda ruim demais
euexauri-me
arrumeium olhar longe sem rumo
deperiquito velho
poucobico

mas
pensandobem
estábom
agorajuntos, nós damos a solução

por Pedro Luiz

As traquitanas de Álvaro Campos

Para Fábio Miguel

“Nós não estamos só em nós mesmos, certos objetos conservam a memória do que somos”

Rodner Lúcio



Quando Álvaro Campos morreu deixou aos filhos a incumbência de desfazeremde suas coisas doando-as, vendendo-as ou simplesmente consumindo-as no fogo.Nada além do que estava estipulado em testamento deveriam os filhos conservarpara si. Dizia ele que “há objetos que possuímos porque narram algo de nossahistória, mas uma história que compete apenas a nós contarmos. São essastraquitanas que vamos acumulando no porão, e que, vez ou outra, numa arrumação,encontramos e despertam nossa memória. Só em nós elas despertam sensações, sentimentos,emoções particulares. Elas precisam de nós para terem sentido, sem a nossapresença elas se apagam.” Feito, então, a partilha dos bens, os filhos de ÁlvaroCampos, num domingo, reuniram-se para decidirem o que fazer com as traquitanasdo pai. Desceram ao porão, reviraram-no todo, foram desentranhando uma montanhade coisas que iam separando umas para serem doadas, outras para serem vendidas,outras para serem queimadas, não pareceu-lhes difícil decidir em que categoriacolocar cada coisa. A certa altura, o mais moço encontrou um botão de camisa,lágrimas escorreu-lhe nos olhos, um outro dava saltos de alegria, calçando umvelho par de sapatos, outro contava animado um fato qualquer, segurando umacaneca de porcelana ... O fato é que passados vinte anos, os filhos de Álvaro Camposainda não saíram do porão. Ora choram. Ora riem. Ora cantam...

por Claudio Domingos