A história que meu compadre contou foi bem outra, mas...
Alzemira sempre teve vontade de entrar em um sex shopping. Mas receava ser vista por alguma congregada: “o que iriam dizer as irmãs?”, pensava. Ainda mais que em suas pregações, Atalberto, o marido e pastor da Igreja só Deus Ama e do jeito dele, era veemente em atacar qualquer mínima escorregadela libidinosa dos congregados. Bastava um suspiro, um desviar de olhos, para Atalberto condenar o pobre cristão ao fogo eterno. E Alzemira desviava o olhar, mudava caminho, trocava calçada, mas estava ela sempre em frente “à porta do inferno”, olhos pregados e curiosos em suas vitrines. E já não conseguia dormir à noite, acordava transpirando, ofegando, garganta seca. Um dia Alzemira tomou coragem e entrou, receosa, temerosa, ávida corria os olhos pela infinidade de artigos ali expostos, encantou-se por um “dildo” de cor negra. Comprou-o e o guardou na bolsa que carregou como quem anda nua pelas ruas, sentido o olhar de todos sobre si. Alzemira, chegando em casa certificou-se de que Atalberto não estava, trancou-se no banheiro e brincou demoradamente. Depois tratou de camuflá-lo no fundo de uma gaveta. Toda vez que Atalberto toma a palavra e com efusão condenava a libidinagem, a descompostura, a falta de decoro das pessoas, condenando-as irremediavelmente, Alzemira se molhava em suor e penitenciando-se prometia dar fim “àquela coisa do demônio”. E foi assim, que certa tarde, Alzemira pretendendo dar fim ao seu “objeto de perdição“, procurou-o no fundo da gaveta, mas não o encontrou: “meu Deus, Atalberto!” Durante a janta ela evitou o olhar de Atalberto, esperando-o: “com certeza agora ele me esculacha, me bota para fora de casa...” Nada! Atalberto agiu como de costume. Alzemira passou dias revirando a casa a procura do “maldito objeto”, num misto de saudade, alívio, preocupação. Nada de encontrá-lo. Renunciava a perguntar às filhas. Certa noite, já se acostumando com o fato de ter perdido o “maldito objeto” e receando e desejando comprar um outro, Alzemira entra no escritório do marido: “Atalberto!... Seu Filho da...” “Calma querida...” Atalberto de calças na mão: “não é nada disso que você está pensando” ...
por Cláudio Domingos
0 comentários:
Postar um comentário