terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A prótese

por Cláudio Domingos

Michelly Jhacson tinha um belocorpo: esguio, seios arredondados e firmes, não muito grandes, belas pernas eum bumbum que “só por Deus”, como dizia, Apolônio. Todos admiravam sua beleza,mesmo as meninas, que demonstravam uma pontinha de inveja. Apenas Khelly Key,com seus olhos azuis lhe era rival à altura. Quando Michelly passava,suspiravamos e nossos olhos a seguiam avaros. Michelly, no entanto encasquetaraque não era tão bonita como queriamos nós. Se olhava no espelho e não seconformava: os seios, sim!, os seios não lhe agradavam, pareciam-lhe pequenos.Michelly decidiu: “devo colocar protese!”. Michelly ficou, como dizia um amigo,“a gata”. Nem mesmo Khelly Key foi lhe pario, até que, também, recorreu à mágicada cirurgia estética. Michelly agora desfilava com satisfação seu corpo porentre nós, a quem dava-nos apenas este direito: de babar por ela. Michelly nãoqueria nada com “esses pés chatos do bairro”, como dizia. Ela sonhava com oestrelato, e vivia correndo atrás da oportunidade de participar destes realityque infestam a televisão. Uma vez chegou a participar de um programa de auditóriocomo Garota Morango. O fato é que, desde que começaram a sugir problemas com asproteses de silicone da PPI, Michelly anda acabrunhada. Ela chegou a ligar paraseu esteticista, que garantiu-lhe : “ eu trabalho com  proteses rigorosamente avaliadas eregulamentadas pelos orgãos de saúde da Europa e Estados Unidos”. Mas Michellyencasquetara e, de modo quase doentio, se auto analizava repetidamente,receiando estar carregando um mal indelével em seu corpo. Do dia pra noite  Michelly se apagou, passava por nós epercebiamos, não mais atração e desjo, mas preocupação por ela.  A beleza de Michelly desaparecera entre seusreceios e o mal estar que estes receios lhe causavam, nos atingiam de algumaforma. Sofriamos com Michelly... Ontém Michelly acordou no meio da noite, levoua mão ao seio e sentiu o visgo, gelou súbito: “Meu Deus! Vazou!”. O espantomaior veio-lhe em seguida, quando sentiu algo sugando-lhe o outro seio. Um serinforme, gelatinoso, brotara de uma de suas proteses e se alimentava da outra.Michelly, passado o espanto: “menos mal, não é um cancer”.

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